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sonho num navio


Vamos brincar?

- Hmmm... Brincar de quê?

- De qualquer coisa.

- Qualquer coisa o quê?

- Ah, qualquer coisa! Então... você brinca, né?

A conversa não levava a lugar algum, mas servia para ganhar tempo entre um pega-pega e uma partida de damas. Porque, pelo gosto de Sabrina, a palavra descansar jamais sairia de sua boca.

Às vezes, ela se lembrava de tomar água, após correr muito. Ou se lembrava de que tinha uma mercearia cheia de balas bem na esquina de onde morava. Ou era lembrada pela mãe de que já era tarde e precisava dormir. Mas estas eram as únicas pausas ao longo do dia cheio de brincadeiras.

- Vamos brincar? Vamos brincar, vamos brincar?

- Dá sossego, Sabrina! – censurava a avó.

Mas ela não queria sossegar, e saía exclamando para todo mundo que via no meio do caminho o “Vamos brincar”.

No final das contas, eu descansava um pouco e já aceitava novamente o seu convite. E ela abria um sorrisão, começava a planejar tudo e a criar regras mirabolantes que eu jamais entendia em sua plenitude. Sabrina fantasiava situações, criava monstros que não existiam, lutava como se fosse uma descendente de Dom Quixote.

Eu, ao seu lado, ria daquilo tudo e entrava no mundo imaginário da criança de mente fértil. E, mesmo sem fôlego para tudo o que ela queria fazer, eu ficava feliz ao ouvir um forte e estridente:

- Vamos brincar?



Escrito por flaviamoraesmoreira às 21h33
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Fora do prazo

O pacote de pão de forma não tinha mais do que seis pedaços. Não estavam moles, mas também não estavam tão duros a ponto de serem levados para a torradeira. No pacote, a informação de que a data de validade já se fora há quatro dias fez com que ele ficasse ali, na mesa, escondido, até chegar o sábado, quando a limpeza é feita por toda a casa.

Meu pai, que adora se envolver neste momento da semana, ajudou a faxineira.

- Deixa eu limpar aqui pra senhora. Vou guardar este aqui no armário, este aqui vai pro lixo...

A afirmação assustou a dona Gisele. Olhou, quase que incrédula, e falou, antes que o pacote de pão fosse para a sacola dos restos:

- Não, seu Newton, deixa aí.

- Mas tá vencido.

- Tem problema, não, tá novo – disse, já abrindo a embalagem e comprovando com os olhos o que acabara de falar – Vou levar lá pra casa, pra minha neta.

A menina de 11 anos é criada pela avó. Para isso, a senhora de 60 anos precisa trabalhar como faxineira a semana toda, inclusive no sábado.

E agradece, é claro. Agradece pela diária que recebe e por tudo mais: uma cesta básica, uma lata de Nescau, roupas usadas que seriam doadas para instituições de caridade. Agradece pela menina, porque tudo o que ela é faz é voltado para esta jovem menina. A criança percebe isso. E vê, com os próprios olhos, a vó chegar deste “mundo tão diferente”, onde as pessoas jogam pão de fôrma vencido no lixo.

Aí ela vê, neste dia-a-dia de luta da avó, que, mais importante do que ganhar brinquedo, é ganhar estômago cheio. Estômago cheio de comida e cabeça com conhecimento, porque ninguém vive com o estômago vazio. Mas também não consegue viver com a cabeça vazia.

- Vovó, tem jornal hoje?

- Tem, sim! Peguei lá. – D. Gisele mostra o Estado de Minas do domingo passado.

E o que importa que ela não tem informação quentinha, saindo do forno? O mais legal é que ela lê, e gosta de ler. Qualquer coisa, não importa o quê. Importa ler. E se o pão não está vencido, quem é ela pra dizer que jornal tem data de validade? A única coisa que vence, e que a criança não quer deixar ir embora, é o tempo. O tempo de brilho no olhar que é a infância.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 21h33
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Como era bom...

Acordava. Era a hora mágica. Cama da mãe, bocejos, preguiça, pijama, e o despertador nem precisava trabalhar. Roupas coloridas já me ajudavam a ficar bem desperta, e eu cantava, cantava. Dançava, voava, voava. De repente, nem estava mais ali, nem era uma menina comum. De repente, pegava um morango como café da manhã, e a pista de pouso era o palco. Tinha os cabelos amarelos, usava pompom, e, na cabeça, um chapéu especial. Tudo isso gerava sorrisos que iluminavam fantásticos sonhos feitos de cristal.

Cristal azul, tranqüilidade. Cristal laranja, amizade. Cristal verde, esperança. E ainda tinha o violeta e o vermelho. Mistura de arco-íris, de encantamento, de imersão. Doce, singelo, era um beijo na palma da mão. A marca ficava, junto com os sonhos. Era magia. Pareciam não ter fim as brincadeiras, lá eu estava junto às demais.

E ela brilhava, era o Sol, era a Lua. Era tudo. A gente era estrela, que brilhava pouco, porque era bem menor que ela. Mas ia crescer. E cantava que era bom, bom, bom, bom. Porque era.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 10h59
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Um doce de pessoa

Ou a pessoa tem educação, ou não tem. No caso de Susaninha, além da educação, faltou respeito com o trabalho da menina e sobrou "rei na barriga".

Quem não tiver paciência de assistir ao vídeo todo, pode começar a partir de 2min 30seg.

E não deixe também de reparar na fala do 3min 30 seg: "E você vê que eu tô aceitando qualquer convite mesmo..." ou seja, tirou o Didi, né? Tradução da frase: "Tá vendo? Qualquer porcaria que me oferecem pra fazer, eu tô fazendo".

Eu até defendi neste blog a Susana Vieira na época do marido doidão dela que traiu e depois morreu drogado. Achei que alguns meios, liderados pela sempre presente Sônia Abrão, exageraram na exposição do caso. Mas... vamos dizer que ela também provoca, né? Uma pitada de humildade faria milagres.

 



Escrito por flaviamoraesmoreira às 22h17
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Conversa de loucas

A viagem era longa, de busão mesmo. E ainda teve atraso de 50 minutos para o bendito sair da rodoviária. No final das contas, foram 16 horas na estrada: 849 Km rodados. Mas deu certo, isso que importa.

O legal dessas viagens é observar os demais passageiros do ônibus. Eu conhecia vários deles. A atenção é importante, principalmente nas paradas. Ver alguém do mesmo bus que você sempre traz um certo alívio... "ó, não fui esquecida! deve tá na limpeza ainda".

E foi isso que uma senhora esquisita fez. Eu sou malévola, mas nesse caso estou sendo simplesmente realista. Ela era esquisita mesmo... era magrinha com uma roupa mais larga que o necessário. A barra da calça social preta surrada não cobria os tornozelos completamente. Os sapatos eram ortopédicos, com uma meia branca do tipo jogador de futsal. Cabelos presos num rabo de cavalo mal feito, cheio de mechas fugitivas. E andava como se tivesse as duas pernas coladas, com passos curtos.

O pior de viagem longas é que sempre que você está conseguindo cair no sono, o motorista faz o favor de parar num ponto de apoio e gritar algo do tipo: "Governador Valadares. 20 minuuutos!" Pronto. Acordei.

Saio do ônibus toda tonta. Eram o quê? 2 e meia da manhã? Algo assim... meu celular se escondera na mochila e eu não tinha forças para procurar. Sentei no banquinho. Ao meu lado, um idiota acende um cigarro... Fumaça na madrugada é demais, prefiro ficar em pé.

A senhora esquisita passa na minha frente... eu identifico: "é do meu ônibus". Então ela passa de novo. E de novo. E se exalta. Procura que procura, mas não acha. Com um espetinho de frango nas mãos e um copo descartável de café com leite, ela começa a exclamar para os funcionários da empresa: "Salvador! Salvador!" Ninguém escuta. Então ela entra em um ônibus da linha Salvador - São Paulo que estava partindo. 

- Salvador?
- é... - o motorista surpreso diz.
- Salvador...
- A senhora veio de Salvador? Ou tá indo?
- Eu quero o ônibus que vai pra Salvador.
- Não é este.

Ela desce e continua a correria com as perninhas presas. Um funcionário para (sem acento, han?) sua trajetória. "O ônibus de Salvador tá lavando. Daqui a pouco tá aqui." Ela se acalma e vai pra outro lado. Eu volto a dormir em pé..... zzzzzz...

Quando menos espero, uns dois minutos depois, a mulher passa na minha frente mais uma vez.

- Salvador!!  

HAHA. Começo a achar divertido.

Outro funcionário para a senhora: "Ele foi lavar e abastecer. Já, já está de volta."

- Ahhh - finalmente ela entendera.

E ficou lá, ao meu lado, aguardando.

Então aparece uma outra senhora, também companheira da viagem... essa é baixa, gordinha, com cara de soteropolitana, seja lá o que você leitor entenda por ter uma cara assim. Pra mim, quem é de Salvador tem a cara da cidade... de baianas vendedoras de acarajé, ou mais ou menos isso.

- O ônibus pra Salvador....

A senhora esquisita logo se manifesta:
- Você está no mesmo ônibus que eu! Eu lembro de você! - prova de que essa associação é mesmo comum. Na verdade, passageiros do mesmo ônibus formam uma comunidade. Que o digam aqueles busões que vão do Oiapoque ao Chuí... Tipo Aracaju-São Paulo. Três dias com a bunda na mesma poltrona...

- Ah... é? Você tá indo pra Salvador?
- Tô! O ônibus foi lá pro canto abastecer e limpar.
- Nossa, que bom que você está aqui... se não estivesse, eu ia achar que o ônibus já tinha ido embora.
- Pois é! Mas não foi. Eu também achei que tinha ido... Quer? - ela oferece o lanche que tinha nas mãos.
- Não, acabei de comer uma coxinha. Eu não gosto de comer muito em viagens... (Pra mim, comer coxinha em viagem de ônibus, as 2 e meia da madrugada, ultrapassa a linha do "comer muito". Mas cada um tem seus padrões...).

Dez minutos. O ônibus para na nossa frente.

Motorista mentiroso. O certo era "Governador Valadares. 40 minuuutos". E vâmo que vâmo. Ainda tem muito chão pela frente. 

 



Escrito por flaviamoraesmoreira às 22h49
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Tiradentes

Tiradentes é hoje um mito nacional. Mas como se deu a construção do herói?

http://www.ufmg.br/online/tv/arquivos/011688.shtml



Escrito por flaviamoraesmoreira às 12h15
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Eu tenho preguiça do Twitter, mas resolvi fazer pra não perder as piadas dos meus queridos e inspiradores musos do CQC. E, quem sabe, de quebra, ainda aprendo a ser "simples e ótima" com as palavras.

Quem quiser, follow me!



Escrito por flaviamoraesmoreira às 11h58
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Pela porta dos fundos

Eu e a equipe de reportagem subimos pelo elevador de serviço. Até pra encontrar o bendito foi difícil.

Se eu fosse a Patrícia Poeta, o elevador social teria ido automaticamente até mim. Como eu não sou, até que me diverti nos labirintos da classe média alta belo-horizontina. 



Escrito por flaviamoraesmoreira às 18h21
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Um pouco mais de paciência, Sr. Padre

Eu acredito em Deus. E gosto de músicas que falam dEle, porque as letras me dão uma paz muito grande. Eu já achei "piegas" falar isso, já achei exagerado ou até mesmo um comportamento "bitolado". Mas hoje eu posso ver que o ato de ter Fé não pode ser tão reduzido.

É claro que isso não me faz fechar os olhos e concordar como uma ovelha com o que os padres e pastores falam. Eu não frequento assiduamente nenhuma igreja, vou quando quero ir. Mas rezo todos os dias, e essa minha forma de ter Fé basta. Eu não concordo com a total criminalização do aborto, por exemplo. E acho ridículo que a Igreja seja contra o uso de preservativos.

Mas esta enrolação inicial não é o objetivo do post. Eu só queria mesmo contar algo que vivi hoje, na igreja aqui perto de casa.

Lá tem um padre mais velho, que está nesta paróquia desde que eu me lembro por gente. E, cada vez mais, eu vejo a impaciência dele com os fiéis e o conservadorismo que marca suas ações. Durante uma hora de missa, ele brigou cerca de três vezes, por motivos mínimos. Para ele, são motivos grande, é claro, mas são coisas que só farão as pessoas se afastarem mais e mais de suas pregações.

Primeiro: hoje é Domingo de Ramos e, antes da missa, houve uma procissão. Sincerante? Eu nem lembrava que dia era hoje e não tinha a menor idéia dessa procissão. Nem eu, nem meus pais e nem a maioria do pessoal que estava lá. E, em vez de receber aquele tanto de gente de forma acolhedora, o padre xingou! Ficou resmungando no microfone por uns cinco minutos que a caminhada fazia parte do Ato, e que nem adiantava aparecer lá só na segunda parte, em que a gente ficava sentado.

Segundo: na hora do sermão dele, o microfone começou a falhar. Juro que, se não fosse o padre conservador que é, ele teria dito uns bons palavrões lá. Ficou irritado e nem agradeceu ao voluntário que lhe levou outro microfone.

Terceiro: próximo ao momento da bênção final, várias pessoas começaram a ser aproximar do púlpito, para ficarem próximas do padre, que jogaria água benta. Pra quê, meu povo? O padre parou o que estava falando e mandou o pessoal ficar quieto, parar de sair dos lugares.

Êita, educação! Uma paciência, uma sabedoria, um amor ao próximo... Se nós todos somos irmãos e mortais, por que essa soberba, Sr. Padre?



Escrito por flaviamoraesmoreira às 20h26
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Dupla

Sempre gostei desta música. De repente, descubro o compositor... Uma novidade nem tão novidade assim. Dá pra sentir.

http://www.youtube.com/watch?v=yohwsN12WQU

Encontrei esta música. Pouco depois, descobri quem já fez sucesso com ela... A letra caia bem para sua voz.

http://www.youtube.com/watch?v=0GWBHiMss7M

Vi este vídeo. Uma bela junção dos talentos.

http://www.youtube.com/watch?v=HRq6jkGbBo8 



Escrito por flaviamoraesmoreira às 17h19
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De repente

Sentia que podia voltar a fazer o que tanto gostava. Voltava a ser ela mesma. De repente, as lágrimas começaram a brotar. Queriam escorrer, mas não era a hora. Estava feliz demais para chorar.

De repente, estava ali, pronta para agir. Era a mesma garotinha, e estava feliz com isso. Era disso mesmo que precisava, e não das dificuldades de uma adulta. Ela podia voltar a falar, como se jamais tivesse sido calada. O corte profundo não era mais dor, virou aprendizado. Aprendizado de que ela mesma se gostava e faria de tudo para se fazer feliz.

Percebeu todos os porquês e, enfim, percebeu-se. De repente, voltar a sentir sentimentos verdadeiros. Loucuras, emoções. O apoio era ela mesma, e ela se compreendia. Sabia tudo. Tudo se transformou muito. Ventos, impressões, visão.

Mais do que voar, era possível sorrir.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 21h12
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O controle do tempo

Supôs que sabia o que fazer. Acreditou que o primeiro passo seria o mais difícil. E talvez fosse, mas para ela, e não para ele. Para ele, pouca diferença faria.

Um sorriso, uma palavra, alguma atenção. Nada que fosse exagerado, o básico já bastaria. 

Mas aprendeu que a pressa era inimiga, e que nem toda a coragem do mundo seria sua aliada. As ondas vão e vêm. O sol está a leste e a oeste. Depois do verão tem o outono. Cada coisa a seu tempo.

Se não foi, é porque não era pra ser. Se não é, talvez ainda possa acontecer. Se não será, perder tempo pra quê?

Ela sabia disso tudo e sempre soube. Mas a esperança ainda lhe tocava. Havia tantas coisas boas para esperar... E, por mais que doesse ver os ponteiros passando, ela ainda acreditava nEle. E Ele acreditava nela.

Ela podia voar.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 20h51
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Isso, isso, isso...

- Minha filha, saiba que não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar.

A frase me fez abrir os olhos e sorrir levemente. Eu não discordo totalmente dos dizeres de Seu Madruga. Me levanto, lavo o rosto e, ainda de pijaminha, chego à porta da sala de tv.

Meu vô também achara engraçado. Ele ria sozinho de tudo o que aparecia no Chaves.

Dou um "bom-dia" meio sonolento e um pequeno abraço. Ao seu lado, começo a assistir o programa.

Ele ri, ri muito. Saboreia cada frase, repete algumas, vira pra mim e comenta, conta o que vai acontecer. Eu gosto.

E o programa continua. Eu rio do Kiko e do Seu Madruga, meus favoritos. E sorrio com o meu avô. Minha atenção fica dividida.   



Escrito por flaviamoraesmoreira às 09h50
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Constatações

1) Dizer um simples "bom dia" faz toda a diferença.

2) As pessoas não têm nem um pouco de paciência umas com as outras.

3) Toda minha família é doida.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 11h15
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Os livros e a sacola

Chegou e sentou ao meu lado no banco do ponto de ônibus. Me irritou. Irritou muito. Nas mãos, um palitinho com o qual insistia em cutucar os dentes. No espaço entre nós duas, havia uma certa tensão. Eu ficava me perguntando quando é que ela pararia com aquele hábito chato; cheguei a cogitar a idéia de me levantar e esperar em pé pelo ônibus.

Mas ela parou.

Foi então que apareceu uma moça com quatro livros nas mãos, todos de Direito. No espaço entre eu e a senhora, os livros foram deixados por um instante. A senhora olhou, olhou e olhou para as páginas. Leu títulos, olhou para a moça, e falou:

- Por que você não coloca em uma sacola?

Sem graça, a moça não sabia como responder. "Quatro livros em uma sacola?" Não era uma opção muito sensata.

- Olha, eu sempre carrego comigo sacolas - continuou a senhora, enquanto tirava uma da bolsa. 

Pacientemente, ela e a moça colocaram os livros dentro do plástico. A moça só aceitou porque ficara sem resposta pela bondade da senhora, dava para perceber.

- Pronto! - disse depois que terminou o trabalho - Agora é só você carregar com a sacola, fica mais fácil.

Pouco tempo depois, que eu poderia enumerar como trinta segundos, a moça responde:

- Obrigada.

A velhinha sorriu. A irritação inicial se dissipara. Ela é uma boa pessoa.



Escrito por flaviamoraesmoreira às 12h03
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